A fita amarela

laço amareloUma fita amarela amarrada a sapucaieira era o sinal da espera. Quando já não era possível chorar, rezar ou lamentar, um olhar esturricado de dor buscava a fita desbotada. Com o tempo, ela também amarelou. Já não sabia o sabor do arroz, se era velho, novo ou no azeite. Pouco valia essa informação, tudo era palha.

Ela não queria aquele compromisso. Fora levada a ele como a ovelha ao curral. Escolha dos mais velhos. “Um bom homem para casar. Uma menina moça tão bonita podia se perder!” Agora todos a tratavam como viúva. Então, viúva ela era. Sozinha, carcomida de solidão. Solidão plangente, agarrada a sua alma como as pulgas em Filó. Às vezes, feito Filó, ela se sacudia toda na esperança de encontrar algum alívio, mas nada. Nenhum tantinho assim de dor desgrudava do seu couro.

A quermesse começara, nenhum convite. Viúva sem filhos, peito seco aos vinte anos. Triste sina a carregar. De lua em lua na peleja do viver. O dia poderia não suceder a noite, ela pensava. Mas ele vinha, ele sempre vinha e trazia consigo todos os recomeços: a laranjeira insistia em florir. O sabiá insistia em cantar… e a espera. Ah, amarga espera! Onde se perdera aquele homem que saiu ao fim da tarde para pegar lenha? Quando ela voltaria à casa paterna para ninar os irmãos mais novos e assumir os pais cansados? Lá pelo menos não restaria tempo para esperar.

Carmem Sueli