Poesia

Autorretrato

Matagal

para Raimunda Salgado

passei a infância
correndo atrás do sol,
pés descalços pelos matagais
por entre cascavéis e beija-flores.
logo cedo aprendi o milagre
das sementes:
minha mãe abria a terra
e eu semeava os milharais,
os campos de arroz e as colheitas.
acho que nessa época
já existiam salários, fomens,
crimes, injustiças e humilhações.
quanto à poesia,
foi se alojando aos poucos
nos latifúndios do coração.
e hoje eu tenho as mãos
especializadas na confeitaria
do amor e das canções,
é que já vem da própria herança
natural do ofício
de criar e engravidar as plantas.

Salgado Maranhão

     Do livro: “Punhos da Serpente”, Achiamé, 1989, RJ

Enhanced by Zemanta