O Vendedor de passados

An Albino Kookaburra

An Albino Kookaburra (Photo credit: Wikipedia)

Félix Ventura estuda os jornais enquanto janta, folheia-os atentamente, e se algum artigo lhe interessa assinala-o a tinta lilás com uma caneta. Termina de comer e então recorta-o com cuidado e guarda-o num arquivo. Numa das prateleiras da biblioteca há dezenas destes arquivos. Numa outra dormem centenas de cassetes de vídeo. Félix gosta de gravar noticiários, acontecimentos políticos importantes, tudo o que lhe possa ser útil um dia. As cassetes estão ordenadas por ordem alfabética, segundo o nome da personalidade ou do acontecimento a que se referem. O jantar dele resume-se a uma tigela de caldo verde, especialidade da Velha Esperança, a um chá de menta, a uma grossa fatia de papaia, temperada com limão e uma gota de vinho do porto. No quarto, antes de se deitar, veste o pijama com tal formalidade que eu fico sempre à espera de o ver atar ao pescoço uma gravata escura. Esta noite o estrídulo da campainha interrompeu-lhe a sopa. Isso irritou-o. Dobrou o jornal, levantou-se com esforço e foi abrir a porta. Vi entrar um homem alto, distinto, nariz adunco, as maçãs do rosto salientes, bigode farto, curvo e lustroso, como não se usa há mais de um século. Os olhos, pequenos e brilhantes, pareciam apoderar-se de todas as coisas. Vestia um fato azul, de corte antiquado, que no entanto lhe ficava bem, e segurava na mão esquerda uma pasta em cabedal. A sala ficou mais escura. Foi como se a noite, ou alguma coisa ainda mais enlutada do que a noite, tivesse entrado juntamente com ele. Mostrou um cartão de visitas. Leu alto:

“Félix Ventura. Assegure aos seus filhos um passado melhor”. Riu-se. Um riso triste, mas simpático: “É o senhor, presumo? Um amigo deu-me este cartão.”

Não consegui pelo sotaque adivinhar-lhe a origem. O homem falava docemente, com uma soma de pronúncias diversas, uma sutil aspereza eslava, temperada pelo suave mel do português do Brasil. Félix Ventura recuou:

“Quem é você?”

O estrangeiro fechou a porta. Passeou pela sala, as mãos cruzadas atrás das costas, detendo-se um largo momento em frente ao belo retrato a óleo de Frederick Douglass. Finalmente sentou-se numa das poltronas e com um gesto elegante convidou o albino a fazer o mesmo. Parecia ser ele o dono da casa. Amigos comuns, disse, e a voz fez-se ainda mais suave, tinham-lhe indicado aquele endereço. Haviam-lhe falado num homem que traficava memórias, que vendia o passado, secretamente, como outros contrabandeiam cocaína. Félix olhou-o desconfiado. Tudo no estranho o irritava – os modos doces e ao mesmo tempo autoritários, o discurso irônico, o bigode arcaico. Sentou-se num majestoso cadeirão de verga, no extremo oposto da sala, como se receasse ser contagiado pela delicadeza do outro.

“Posso saber quem é você?”

Também dessa vez não obteve resposta. O estrangeiro pediu licença para fumar. Tirou do bolso do casaco uma cigarreira de prata, abriu-a, e enrolou um cigarro. Os seus olhos saltitavam de um lado para o outro, numa atenção distraída, como uma galinha ciscando entre a poeira. Deixou que o fumo se espalhasse e o cobrisse. Sorriu num inesperado fulgor:

“Mas diga-me, meu caro, quem são os seus clientes?”

Félix Ventura rendeu-se. Procurava-o, explicou, toda uma classe, a nova burguesia. Eram empresários, ministros, fazendeiros, camanguistas, generais, gente, enfim, com o futuro assegurado. Falta a essas pessoas um bom passado, ancestrais ilustres, pergaminhos. Resumindo: um nome que ressoe a nobreza e a cultura. Ele vende-lhes um passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo. Os empresários, os ministros, gostariam de ter como tias aquelas senhoras, prosseguiu, apontando os retratos nas paredes – velhas donas de panos, legítimas bessanganas –, gostariam de ter um avô com o porte ilustre de um Machado de Assis, de um Cruz e Sousa, de um Alexandre Dumas, e ele vende-lhes esse sonho singelo.

“Perfeito, perfeito.” O estrangeiro alisou o bigode. “Foi isso que me disseram. Eu preciso dos seus serviços. Receio aliás que lhe vá dar bastante trabalho.”

“O trabalho liberta”, murmurou Félix. Disse-o talvez para provocar, para testar a identidade do intruso, mas se era essa a intenção falhou, pois este limitou-se a fazer com a cabeça um gesto de assentimento. O albino levantou-se e desapareceu na direção da cozinha. Voltou pouco depois segurando com ambas as mãos uma garrafa de bom tinto português. Mostrou-a ao estrangeiro. Ofereceu-lhe uma taça. Perguntou:

“Posso saber o seu nome?”

O estrangeiro estudou o vinho contra a luz do candeeiro. Baixou as pálpebras e bebeu devagar, atento, feliz, como quem segue o vôo de uma fuga de Bach. Poisou o copo numa pequena mesa, mesmo à sua frente, um móvel em mogno, com tampo de vidro; finalmente endireitou-se e respondeu:

“Tive muitos nomes mas quero esquecê-los a todos. Prefiro que seja você a batizar-me.”

Félix insistiu. Precisava de saber, no mínimo, em que se ocupavam os seus clientes. O estrangeiro ergueu a mão direita, uma mão larga, de dedos compridos e ossudos, numa vaga recusa. Depois baixou-a e suspirou:

“Tem razão. Sou repórter fotográfico. Recolho imagens de guerras, da fome e dos seus fantasmas, de desastres naturais, de grandes desgraças. Pense em mim como uma testemunha.”

Explicou que pretendia fixar-se no país. Queria mais do que um passado decente, do que uma família numerosa, tios e tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, avós e avôs, inclusive duas ou três bessanganas, embora já todos mortos, naturalmente, ou a viverem no exílio, queria mais do que retratos e relatos. Precisava de um novo nome, e de documentos nacionais, autênticos, que dessem testemunho dessa identidade. O albino ouvia-o aterrado:

“Não!”, conseguiu dizer. “Isso eu não faço. Fabrico sonhos, não sou um falsário… Além disso, permita-me a franqueza, seria difícil inventar para o senhor toda uma genealogia africana.”

“Essa agora! E porquê?!…”

“Bem… O cavalheiro é branco!”

“E então?! Você é mais branco do que eu!…”

“Branco, eu?!”, o albino engasgou-se. Tirou um lenço do bolso e enxugou a testa: “Não, não! Sou negro. Sou negro puro. Sou um autótone. Não está a ver que sou negro?…”

(…)

Trecho do livro  do escritor angolano José Eduardo Agualusa

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