Poesia

Sou um sujeito magro

Sou um sujeito magro.
Nasci magro.
Estou nos acontecimentos
Como num vendaval: dobrado
Recurvo de espanto
E verdes…

Circulo sob arranha-céus.
Vivo debaixo de cubos:
Na direita, na esquerda
De lado, ao sul
Pelo norte… Vou no meio assustado.
Um pequenino ser com a sua morte dentro,
Com seu ombro desabado
E seus braços descidos pelo caos do corpo.

Sou ligado por cordões e outros aparelhos secretos a um
escritório complicado.
Portas mecânicas me subtraem e me devolvem súbito ao
negro asfalto.
Entro e saio do edifício que come meu rosto e o cunha na
pedra.
Varo becos, bancos e buzinas.

À noite, porém (ó cidade tentacular!),
Me rendo.
Resfolegante como um boi, paro.
Vasta campina azul de água me olha, me contempla, me
aglutina
E suja-me de iodo a roupa…
– É o mar!
Meu rosto recebe a brisa do mar.

Fecho os olhos.
Descanso.
Os ventos levam-me longe…
Longe…

Estou na casa onde nasci.
O tempo emprestou sem dó uma cor amarelada às suas
paredes.
Um amarelo sujo nas raízes, um amarelo de urina de
crianças nas paredes.

Lembro-me bem.
Era um casarão baixo.
Crianças lambiam o barro das paredes.
Na solidão rondavam cavalos.
Bezerros mascavam a roupa dos vaqueiros.

Chegava que um dia
O homem encontrava cobras dormindo na canga dos bois.
– Sinal de enchente… resmungava… e dispois grande!
Bem-te-vis se equilibravam como fantasmas patéticos na
anca pontiaguda dos cavalos,
Que os meninos perseguiam com os seus arreios…

Vaqueiros vinham sentar-se à porta do galpão, de tarde
Olhando as nuvens…
Galinhas ciscavam por ali, no meio do bamburro.
No algibe repleto, o sapo sentado como um doutor.

As águas subiam… Entravam no rancho.
A mulher se refugiava no jirau com os filhos, e lá ficava
dois meses até que as águas baixassem.
O homem chegava de canoa, dava notícias do gado, e
dormia.
Que solidão!
Jacarés passeavam dentro da casa, pelas peças vazias,
apanhando peixes na gaveta das mesas…

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Abro os olhos para pensar nos homens que me viram
crescer.
Homens tristes como seus cavalos.
Abro os olhos e sinto
E sei
Que a força que me inclina hoje para a terra
Essa avidez que as minhas mãos possuem
E a frescura que minha alma adquire quando as chuvas
molham estas plantas,
A vontade de sair sozinho, de noite, e de chorar
copiosamente sobre as ruínas –
Sei bem
Que todas essas coisas têm raízes na casa
No menino selvagem que deixava crescer os cabelos
Até caídos na estrada
Colhidos, como flor de lixeira
Na estrada…

Fecho os olhos de novo.
Descanso.

Logo sinto fluir de mim
Como um veio de água saindo dos flancos de uma pedra,
A imagem de meu pai.
Ouço bem seu chamado.
Sinto bem sua presença.
E reconheço o timbre de sua voz:
– Venha, meu filho,
Vamos ver os bois no campo e as canas amadurecendo
ao sol,
Ver a força obscura da terra que os frutos alimenta,
Vamos ouvi-la e vê-la:
A terra está úmida e os potros ariscos a riscam de seus
empinos e de suas soltas crinas,
Vamos,
Venha ver as cacimbas dormindo repletas!
Venha ver que beleza!
– No bojo quieto das águas robafos engolem lodo!

Abro os olhos.
Não vejo mais meu pai.
Não ouço mais a voz de meu pai.
Estou só.
Estou simples.

Não como essa poderosa voz da terra com que me estás
chamando, pai –
Porque as cores se misturam em teu filho ainda
E a nudez e o despojamento não se fizeram em seu canto;
mas simples
Por só acreditar que com meus passos incertos eu governo
a manhã
Feito os bandos de andorinha nas frondes do ingazeiro.

 

Manoel de Barros